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Equador: jovens demonstram como enfrentar discriminação “com arte”

Equador: jovens demonstram como enfrentar discriminação “com arte”
O Encontro Nacional de Integração de Jovens “Sem fronteiras”se realizou em Quito (Equador) dias 25 e 26 de janeiro de 2014. © ACNUR/ S.Aguilar

QUITO, Equador, 13 de março de 2014 (ACNUR) – “Como gostaria de ser tratado? Com irmandade, amor e respeito”. Assim dizem as garotas e os garotos vindos de diferentes pontos do Equador, como Guayaquil, Lago Agrio, Puerto El Carmen, Ibarra, San Lorenzo, Cuenca e Quito. Estes jovens são refugiados que vivem no país e também equatorianos, estiveram juntos no evento “Sem fronteiras”, ocorrido no Centro de Arte Contemporânea de Quito, para compartilhar experiências e iniciativas sobre a integração e convivência.

“No começo, tinha medo de que não entendessem porque vim de outro país”, explica Yamileth* com sotaque que revela sua origem colombiana, embora já esteja vivendo há 10 anos no sul do Equador. “Mas depois de dez anos, temos aprendido muito: a gravar e a produzir rádio. Temos aprendido muitas virtudes”, completa.

Yamilet, assim como Jorge, fala da sua experiência em um novo país, após ser forçado a se deslocar e cruzar a fronteira equatoriana. Nesta nova realidade, ambos enfrentaram as dificuldades de se integrarem como crianças e jovens em uma nova cidade. Mas, graças ao contato com grupos equatorianos que realizavam atividades de produção audiovisual, de rádio em outros tipos de produção artística, eles têm conseguido criar novos vínculos e redes de amizade.

E, assim, Jorge* conta sobre sua experiência na produção de rádio na cidade de Cuenca. “Eu cheguei a pensar negativamente. Que vou fazer? Cheguei a um dos encontros, num sábado, e vi muitos jovens reunidos. E gostei. Porque aqui aprendemos como tratar as outras pessoas”.

Enquanto isso, o equatoriano Esteban* acrescenta. “O principal problema que os jovens refugiados enfrentam é a discriminação. Para identifica-los no colégio é muito difícil. Em nosso programa de rádio falamos disso. Para que as pessoas possam entender e saber que temos os mesmos direitos e obrigações. Porque sabemos que com o rádio e a televisão podemos alcançar toda a comunidade”.

Assim como eles, cerca de 30 jovens de diversas origens e vivendo em diferentes cidades do Equador se reuniram em Quito para compartilhar conhecimentos, a arte de juntar-se e compartilhar emoções através do grafite, do rádio, da produção de documentários e da comunicação para a paz.

Com o interesse de gerar um espaço de encontro, reflexão e intercâmbio de experiências de integração local entre jovens em situação de refúgio e equatorianos, o evento coordenado pela Fundação Ambiente e Sociedade com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) buscou consolidar o apoio em iniciativas de organização e participação de jovens conforme suas próprias dinâmicas e interesses.

Nas palavras de Zaira* e Milena*, uma colombiana e uma equatoriana: “Queremos compartilhar estas práticas e levar este enfoque cultural como uma contribuição. Expressar o que se tem na cabeça te faz se sentir orgulhosamente empreendedora”.

O deslocamento e as dificuldades de comunicação afetam a população de crianças e jovens de maneira intensa provocando abandono dos estudos, perda de habilidades e de redes de apoio. O Equador, que acolhe cerca de 55 mil refugiados reconhecidos pelo governo e um número indeterminado de pessoas em necessidade de proteção internacional, enfrenta atualmente o desafio de gerar espaços de convivência e integração para essa jovem população em movimento.

Para John Fredrikson, representante do ACNUR no Equador, “a integração local da população refugiada nos bairros, nas escolas e escolas de acolhimento, passa por olhares e soluções integrais. Para se chegar a isso, essas iniciativas dos jovens – nascidas a partir dos seus próprios interesses – são fundamentais para construir espaços de solidariedade e oportunidade para o futuro em benefício da própria comunidade”.

Estes espaços favorecem um processo de afirmação básico para a reconstrução da identidade, que como diz Maria Fernanda*, “favorecem o sentir-se parte do entorno que os acolhe”.

“A situação se tornou muito difícil e tivemos que vir para cá. No Equador, tive a oportunidade de aprender coisas que nem imaginava”, diz uma jovem pequena e risonha, que junto ao seu irmão produziu o curta Qué difícil ser perro en Monte Sinaí  (ou Como é difícil  ser cachorro em Monte Sinai), um relato de amizade que retrata as duras condições de vida em um bairro em Guaiaquil no Equador. E acrescenta: “O dia que o documentário foi lançado e que vi o que havíamos feito, me emocionei. Hoje me sinto parte daqui também”.

* Os nomes dos jovens foram alterados por razões de confidencialidade.

Por Sonia Aguilar de Quito, Equador.